Amanhã vai ser outro dia

Depois de algumas semanas aqui no Brasil, minha mãe voltou hoje para a Alemanha. Agora em que eu escrevo isso, ela provavelmente está em Porto Alegre decolando com destino a Lisboa, para depois seguir viagem mais uma vez. Queria poder dizer que essas despedidas vão se tornando mais fáceis, mas elas nunca ficam.

Ontem tivemos nosso dia de mãe e filha e aproveitamos juntas meu dia de folga. Fomos em uma cafeteria, sentamos lado a lado e conversamos sobre várias coisas do cotidiano. Nas últimas visitas dela por aqui, consegui me liberar pouco do trabalho e muitas vezes tive que dividir a atenção dela com nossa família e amigos. Assim como os outros, eu também só tinha os finais de semana livres que sempre eram muito disputados. Por mais que não nos vimos tosos os dias, dessa vez foi muito diferente. Muito desse tempo que sempre era reservado para os outros veio para mim, para curtir minhas conquistas na casa nova e falar sobre tudo (e nada ao mesmo tempo).

Por mais que agora eu tenha 30 anos, eu ainda gosto do colinho de mãe. Eu amo essa presença, ela reclamando de estar com calor e o cheirinho de desodorante Nivea black and white, que sempre é o mesmo – as vezes dá vontade de pedir pra Nivea apelidar aquela variação de perfume de cheiro dela. Eu amo o jeito espalhafatoso e tão cheio da personalidade dela, que todo mundo sabe que é ela chegando só pelos sons (principalmente a risada).

Eu amo o sorrisão que aparece quando ela pinta a raiz do cabelo mais escuro durante a viagem e todo mundo comenta que nós duas somos muito parecidas e que ela parece ser tão jovem, que parece ser minha irmã. Amo DEMAIS quando ela vem com o cabelo úmido e pede pra eu secar e fazer escova, pois ela adora as pontas do cabelo viradinhas pra fora. Eu acho foda demais que ela vê – só de me olhar de relance – que eu não estou bem ou estou triste, quando ninguém mais consegue identificar isso. Acho foda que mesmo ela tendo um pouco de medo de cachorros, trouxe até presente para a Lolô e fez questão de brincar com ela sempre que pôde.

Amo também que a gente ainda tem essa ligação maravilhosa na cozinha fazendo bolos gostosos – como a receita de bolo de maçã que eu ensinei pra ela e agora ela provavelmente faz melhor que eu.

Eu queria tanto que esse buraco de saudade não doesse tanto. Eu queria que voar até lá fosse possível a cada meio ano pelo menos. Queria ter mais flexibilidade de poder passar mais tempo com ela, sem ter que me preocupar em como vou recuperar essas horas ou se alguém vai se incomodar com minha ausência no trabalho. São muitas coisas que eu queria, sabendo que de momento não posso.

As vezes se passam dias, semanas, e uma das coisas que fica claro é que tudo passa. Amanhã vai ser outro dia, aí outro e outro… até chegar o momento de podermos matar mais um pouquinho dessa saudade. Hoje estou triste, amanhã provavelmente também. Semana que vem? Talvez também.

Nossa melhor versão vale muito mais a pena quando compartilhada com pessoas com quem amamos. Esse é o melhor lado positivo da saudade: de amar uma pessoa do jeitinho que ela é e sentir falta de como nós somos na sua presença.

Amanhã vai ser outro dia. E aí outro. Aí eu fico bem.

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