O tempo de sonhar é em cima da terra

Oii!

Imagine uma cidadezinha do Ceará que resolve construir uma estátua em homenagem a Santo Antônio em cima de um morro e que por um erro, a cabeça do santo não pôde ser anexada ao corpo que já estava construído. Pense também que esse acontecimento faz com que a cidade quase ‘morra’… poucos moradores ficam na cidade e a grande maioria foge, por pensar que a cidade é assombrada. Agora imagine que anos depois um rapaz vai morar dentro da cabeça do Santo que ficou abandonada no meio do mato e passa a ouvir de forma inexplicada & miraculosa, as orações das moças pedindo a ajuda para conseguirem casar.

É nessa premissa que Socorro Acioli nos mostra o quanto uma pessoa pode lutar quando está totalmente sem opções na vida e como a fé das pessoas pode dar esperança ou ser explorada de forma desonesta. 

Peguei esse livro sem muitas perspectivas, no escuro do que poderia ser. Tentei ao máximo não buscar referências, para ter a cabeça limpa e não ter influência de ninguém. No começo senti dificuldade de me ambientar na história, pois não é o tipo de leitura que eu normalmente leio (ultimamente não tá dando para me defender) e por não conhecer muito bem a cultura nordestina, tive que ir pesquisando para me situar. Fui indo de capítulo em capítulo, tentando captar as nuances e tudo foi fluindo. Imediatamente fui de cara com Mariinha, que me pareceu ser muito boa e carismática e me lembrou um pouco minha avó, que também é uma mulher de fé inabalável.

Samuel, como figura central, não me passou tantos carismas, mas ao mesmo tempo como ter carisma quando se perdeu a mãe, está em estado de extrema vulnerabilidade, caminhando 16 dias no sertão? A esperança de vingança e realizar os desejos da mãe fez ele conseguir chegar em Candeia, a cidade onde seu pai e avó moravam. Samuel mostra o quanto é preciso ser forte para lidar com o fato de estar sozinho no mundo e precisar aprender a seguir em frente, mesmo com tanta dificuldade no caminho.

Fugindo um pouco da trama central, tem uns pontos que me chamaram muito a atenção:

  1. Confesso que quando lembro do Santo Antônio com a dor de cabeça pelo excesso de trabalho, ainda dou umas risadinhas gostosas… também tenho enxaqueca se trabalho demais, então entendo bem demais o Santo kkkkk #gentecomoagente
  2. Fernando (personagem secundário) tem uma passagem interessantíssima:

    “…Mas era difícil para ele suportar que na cabeça de sua esposa só coubesse aquele pequeno mundo de Candeia… essa forma de viver sem sonhos, sem caminhos novos, como se aquela cidade fosse o mundo todo, e não era. O mundo é grande, cheio de coisas, tudo longe dele. E o pior: em Candeia não tinha vento. Ele precisava ventilar o corpo, as ideias, dependia de vento batendo no rosto…”

    Quantas pessoas nós conhecemos que se prendem a situações insalubres e não saem delas, por puro medo de que tudo dê errado? Quantas pessoas conhecemos que têm medo de viver?
  3. Não conhecia mornas de Cabo Verde, então fui fazer umas pesquisas pra tentar entender a diferença no sotaque. Achei essa aqui que me deixou fascinada, pois parece muito com o nosso samba brasileiro.

Pra finalizar, eu adorei a proposta de que Samuel pode ser bom ou ser mau, dependendo do ponto de vista e de quem está falando. Assim como sempre na realidade, né. O Samuel se aproveitou financeiramente da fé E ajudou pessoas no meio do processo. Fez o que pôde e pôde muito.

Um dos pontos que eu teria amado: se a autora tivesse abordado um pouquiiiiiinho mais sobre a Rosário atual, que é uma mulher e não mais uma menina de 5 anos fugindo da má-drasta. Queria ter visto mais sobre os dois se conhecendo e vendo como a história deles milagrosamente se conecta.

No fim, é o que está escrito no livro: O tempo de sonhar é em cima da terra

Essa citação é a que mais me marcou e é a mensagem que vou levar comigo quando lembrar dessa obra.

Esse post faz parte do Clube do Livro do nosso grupo de blogagem coletiva Entreblogs. Se participar do grupo+clube também te anima e você quiser fazer parte, conheça a página no blog da Ba Moretti explicando um pouco mais sobre o grupo.

Livro #001: A CABEÇA DO SANTO, SOCORRO ACIOLI.

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