Desde pequena, eu vivia falando que faria minha carteira de motorista para te levar para passear. Eu e você nos sentávamos lado a lado e ficávamos horas e horas falando para onde iríamos e qual seria a rota para todas as visitas que queríamos fazer. Eu seria a motorista e você sentaria do meu lado, me mostrando o caminho, pois de acordo com você, seu senso de direção é muito bom. Você sempre dizia que conhecia alguns trajetos até de olhos fechados, né. Eu achava isso um detalhe incrível e minha brincadeira favorita por muito tempo era ficar adivinhando onde eu estava, quando andava de ônibus de olhos fechados.
De roteiros de viagem até modelos de carros, brincamos por anos que você me daria um carro vermelho. Não interessava muito o modelo, mas sim a cor, que deveria ser igual ao seu time do coração. Os planos iam de como seria o chaveiro da minha chave, até onde eu iria estacionar meu carro. Cogitamos vários modelos e eu disse que até ficaria feliz com um Fusca, já que era um dos poucos modelos que eu conseguia reconhecer.
Os meus 18 anos foram chegando mais perto. Eu ficava ansiosa pensando nas possibilidade dessa conversa ser real. Olhava dentro das gavetas para ver se não achava nada que pudesse ser parecido com uma chave. Fiquei noites sem dormir imaginando em como a vida de adulta & motorizada iria ser.
Chegou o dia do meu aniversário. Você me deu um daqueles abraços gostosos, disse que me amava e que tinha um presente pra mim. Pediu para minha mãe me entregar a caixinha que ela estava guardando por você fazia um tempo. Aleluia, eu pensei. Você fez toda uma pompa para dizer que eu teria que ser muito responsável dali em diante e eu tomei coragem para abrir a tampa.
Chave? Não. Era um Hot Wheels Lamborghini Aventador J vermelho… o único carro vermelho da loja que você teria condições de me dar. Eu chorei de tanto rir. Nós rimos até chorarmos. Eu tinha acreditado tanto na minha própria esperança de um Fusquinha vermelho, que na hora eu só sabia gargalhar. Esse senso de humor era tão seu.
Hoje eu ando de Fusca, mas não te tenho mais aqui. Hoje me bateu saudades de você, vô.



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