Juro, cavalheiros, que ser consciente demais é uma doença

Imagine um homem sem nome que está coberto em mágoa, ressentimento e insegurança. Ele está tão envolto nesse universo de ódio e se sentir diferente dos demais, que cria a realidade do ‘subsolo’ para si. Entre monólogos compridos e contraditórios, ele tenta fazer sentido com suas palavras, enquanto é travado pela própria sabotagem.

Nesse clima estranhíssimo que Fiódor Dostoiévski traz a obra Memórias do Subsolo. O autor escreveu esse livro em um lugar ruim, em uma situação de fragilidade… o contexto na época não era um dos melhores. O personagem principal, sem nome, é nada e tudo ao mesmo tempo. É nada e se acha tudo, ou o inverso.

Minha cabeça a cada novo capítulo: Lá vem o falador reclamar DE NOVO!!!!!!

Em si, o personagem é tão chato que chega a incomodar. E sabe o pior? Geralmente o que nos incomoda nos outros, também está ou esteve em nós. Todos nós parecemos este homem sem nome… o Dostô provavelmente fez questão de apontar traços da personalidade falsa de todo e cada ser humano, então não tem uma pessoa neste planetinha que não se identificaria com ao menos uma característica do infeliz.

Não é fácil gostar de invejosos e o ressentidos, mas todos nós lidamos com esses sentimentos em algum momento das nossas vidas. Isso explica muito como a gente consegue ler esse livro até o fim.

Não consegui sentir somente ódio do narrador, mas também me diverti com ele em alguns momentos. Enquanto ele faz suas analogias, ele ultrapassa aquela linha tênue do que é normal e o que é absurdo com uma facilidade tão grande – o que só me fez sentir que ele é uma alma machucada que nunca teve amor ou suporte emocional para lidar com seus sentimentos e a sociedade em si.

Se o personagem vivesse hoje em dia e resolvesse falar abertamente tão mal das pessoas e situações, ele seria tão cancelado que o “subsolo” não seria algo voluntário, mas sim obrigatório. Seria um “Redpill” na “machosfera”.

O personagem sofre, se culpa, se pune e tem a faca e o queijo na mão para mudar suas atitudes e prioridades. O que ele faz? Resolve continuar focando no ruim, no sofrimento e miséria e não faz absolutamente nada pra mudar. É uma vida de merd* por escolha própria.

“Ler os livros de Dostoiévski é como ser o terapeuta enquanto lê e precisar de um terapeuta depois que termina.”

Foi um livro esquisito e super interessante de ler. Provavelmente vou ter que reler e tentar as possibilidades de ir intercalando partes do livro ou capítulos, para entender melhor o que está escrito nas entrelinhas. Pode ser também que eu seja “rasa” demais para ler obras muito complexas (tendo em vista o tipo de livro que eu costumo ler).

Por fim, achei que foi um ótimo livro para entrar na literatura russa.

Esse post faz parte do Clube do Livro do nosso grupo de blogagem coletiva Entreblogs. Se participar do grupo+clube também te anima e você quiser fazer parte, conheça a página explicando um pouco mais sobre o grupo.

Livro #005: MEMÓRIAS DO SUBSOLO, FIÓDOR DOSTOIÉVSKI.
Clique no link, para ler os posts dos blogs que fizeram sua resenha

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7 respostas a “Juro, cavalheiros, que ser consciente demais é uma doença”

  1. Avatar de Leituras & surtos do trimestre #02 – Fala, Catarina!

    […] de Subsolo, de Fiódor Dostoiévski – Falei sobre ele nesse post aqui. O livro do anônimo chato, que mexeu demais com as cabecinhas dos leitores do […]

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  2. Avatar de Taís

    Bruna, que resenha maravilhosa! Acho que você conseguiu transmitir exatamente como é a experiência de ler esse livro. Eu fiquei com a cabeça doendo de tanto que o personagem principal é chato, meudeus! hahahha

    https://nyrtais.blogspot.com/

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    1. Avatar de Bruna Both

      Ele comparando muralhas & dor de dente & 2+2=4 e a minha cabeça quase dava nó hahahahaha
      Tinha horas que eu achava um absurdo, aí lia em voz alta pro meu namorado e meio que entendia o que o Dostô queria dizer. Adorei que a maluquice dele fez sentido as vezes kkk
      Fé nas malucas ❤

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  3. Avatar de Aline Codonho
    Aline Codonho

    Brunaaaa, eu não conseguiria descrever esse livro tão bem como você fez. Senti muitas coisas como você sentiu (mas nem tudo foi parar no meu post porque eu não consegui escrever direito rs).
    Eu fiquei com essa sensação de que talvez eu seja rasa, mas no fim eu só acredito que me comuniquei com o livro da forma como pude. Passei pela identificação, pela raiva, pela surpresa de ver como ele reagia às coisas. E chegou uma hora em que eu tava ficando tão maluca lendo que parei de destacar os trechos kkkkkkk só percebi quando fui escrever a resenha rs

    Dito tudo isso, não sei se vou ler Dostoievski tão cedo.

    Seu post ficou ótimo!
    Um beijo!

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    1. Avatar de Bruna Both

      Fiquei toda envergonhadinha com o começo do seu comentário ❤ Muito obrigada!!!!

      Sabe que só por insegurança joguei meu post no chatGPT e ele até disse que por achar o personagem certo e maluco ao mesmo tempo, isso mostra que a gente "viveu" a leitura do jeito que o Dostô queria. Que todo mundo tem esse certo e errado dentro de si e que todo mundo faz besteira em algum momento da vida.

      Dito isso, acho que eu sou daquelas do meme que prefere continuar a ler gibi ao invés de literatura russa kkkkk

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  4. Avatar de Uma garota de 30 anos

    Oi!! Também senti a mesma coisa que você quando li esse livro. Uma mistura de “nossa, que nojo desse homem” com “quê é isso, Dostoiévski? Tá falando comigo???” hahaha adorei o seu texto. Beijos ❤

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    1. Avatar de Bruna Both

      Sabe que o que mais me pegou foi ele surtando, depois da Liza ter dito que ele falava como um livro. Eu sempre tive fama de tagarela e provavelmente se falassem isso pra mim em um momento vulnerável como ele (depois de ter se humilhado na frente de pessoas que ele “admira”) eu ia ou chorar ou surtar também hahahaha

      Eu marquei taaaaaaantas partes do livro que eu me identifiquei… nossa!!!!

      Obrigada pela visita aqui!!! Abração

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